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A vida em Cristo

1998 – Ediçoes Loyola, São Paulo.

Raniero Cantalamessa

Introdução

Nestas páginas, expõe-se um roteiro de reevangelização e renovação espiritual baseado na carta de S. Paulo aos Romanos. Por conseguinte, não se trata nem de um comentário exegético, nem de um tratado teológico (que se dão por pressupostos), mas de uma tentativa de atingir diretamente o objetivo inspirador do Apóstolo ao escrever sua carta, que certamente não foi fornecer aos cristãos de Roma – e a todos os cristãos posteriores a eles – um texto difícil para nele se exercitarem, mas, de preferência, como ele mesmo afirma, “comunicar-vos algum dom espiritual para vos fortalecer e nos confirmarmos uns aos outros na fé”(Rm 1,11).

Não raro, no decorrer dos séculos, a carta aos Romanos se tornou campo privilegiado de discussões e refregas teológicas, apesar de não ter sido escrita para um círculo restrito de doutos, e sim para todo o povo dos “santos e amados de Deus” residente em Roma, constituído em sua grande maioria de pessoas simples e iletradas. O seu escopo era a edificação da fé.

Por isso a Carta aos Romanos é o instrumento ideal para uma nova evangelização; é o melhor esboço para missões populares, retiros e cursos de exercícios espirituais. Ela não se limita a propor, uma depois da outra, estaticamente, importantes verdades reveladas, mas delineia um caminho: da velha existência de pecado e de morte ao ser criatura nova em Cristo; do viver “para si mesmos” ao viver “para o Senhor” (cf. Rm 14,7s). Ela tem o andamento e o dinamismo de um êxodo pascal.

Do texto paulino são extraídos o esquema geral do itinerário e as várias passagens que o subdividem, com a sua ordem e progressão e, por fim – o que sobremaneira importa -, as palavras com que estas passagens se exprimem, que são “palavras de Deus”; e como tais, “vivas e eternas”, eficazes por si mesmos, independentemente de qualquer esquema ou utilização particulares.

Esta caminhada se articula em duas partes ou momentos fundamentais: uma primeira parte, querigmática, apresenta a obra realizada por Deus em nós, na história, ao passo que uma segunda parte, parenética (que principia com o capítulo 12 da carta e, neste livro, com o capítulo sobre a caridade), apresenta-nos a obra a ser realizada por parte do homem.A primeira nos apresenta Jesus Cristo como dom a imitar mediante a fé, a segunda nos apresenta Jesus Cristo como modelo a imitar mediante a aquisição das virtudes e a renovação da vida. Assim, somos ajudados a restaurar uma das sínteses e dos equilíbrios mais vitais e mais difíceis de manter na vida espiritual: o equilíbrio entre o elemento mistérico e o elemento ascético, entre a parte da grafia e a da liberdade, entre a fé e as “obras”.

O ensinamento mais importante da Carta aos Romanos, mais do que nas coisas ditas, consiste na ordem em que são ditas. O Apóstolo não trata antes dos “deveres” cristãos (caridade, humildade, obediência, serviço etc.) e depois da “graça”; como se esta fosse uma conseqüência daqueles, mas, pelo contrário, trata primeiro da graça (a justificação mediante a fé) e, depois, dos deveres que dela derivam e por ela se tornam possíveis.

O meio ou instrumento de que S. Paulo se serve para realizar tudo o que foi dito e o Evangelho: Eu – diz – não me envergonho do Evangelho, que é poder de Deus para a salvação de todos os que crêem (Rm 1,16).Aqui, “Evangelho” equivale a conteúdo do Evangelho, àquilo que nele é proclamado e, particularmente, à morte redentora de Cristo e sua ressurreição. O recurso com que ele nos ensina a contar não é a demonstração racional ou a eficácia retórica, mas a proclamação despojada dos feitos divinos, na qual quem crê verifica o poder de Deus que o salva, sem poder ou sentir a necessidade de explicar-se o como e o porquê. O recurso freqüente às grandes vozes da cultura antiga e moderna – a par das da Tradição da Igreja – não tem o objetivo de comprovar a palavra de Deus ou embelezá-la, mas antes intenta ser um servido prestado à Palavra. O motivo principal pelo qual todas as épocas estão em condições de interrogar a Escritura, dela extraindo sentidos sempre mais profundos, é que cada época a interroga em um nível de consciência e com uma experiência da vida diferentes e sempre mais ricos, com relação aos do passado. Entrementes, a Igreja produziu outros santos e a humanidade, outros gênios. Os gênios leigos – especialmente quando também são grandes crentes – prestam à palavra de Deus este serviço incomparável: são os que fazem avançar o nível de consciência da humanidade e, desta sorte, ajudam a submeter a palavra de Deus a interrogações e provocações sempre mais ricas e profundas.

Nós podemos compreender, na Carta aos Romanos e na Escritura em geral, algo mais, respectivamente até a Agostinho, Tomás e Lutero, apesar de sermos muito menores do que eles, não só para o progresso da exegese bíblica, que foi enorme, mas também porque passamos novas provações e tivemos mestres de humanidades diferentes do que eles tiveram.

Em sua veste atual, o livro constituí a oitava edição, reelaborada e simplificada (a começar do título), da obra A vida sob o senhorio de Cristo. Na década transcorrida desde a primeira edição desta obra, tive ocasião de apresentar seu conteúdo em diversas reuniões e retiros ecumênicos (um dos quais pregado a setenta pastores luteranos na Suécia) e, a cada vez, tive a alegria de ouvir de eminentes representantes de outras confissões cristãs que podíamos compartilhar sem dificuldade tudo quanto tinham ouvido e que isso os ajudava a viver melhor sua própria espiritualidade.Assim nasceu a idéia de eliminar todas as partes não essenciais ou estritamente “confessionais”, de modo que a obra pudesse responder ainda melhor a um propósito ecumênico, apresentando-se, ao mesmo tempo, mais fluente e acessível a todos.

Com vistas ao ano 2000, vai-se difundindo sempre mais entre as Igrejas cristãs um projeto inspirado pelo Espírito Santo. Até agora, nós, os cristãos, anunciamos Jesus Cristo aos demais em competição e rivalidade entre nós, comprometendo nosso testemunho aos olhos do mundo. Por que, então, não nos valer dessa ocasião epocal de fim de século e de milênio para começar a proclamar juntos, em fraterna concórdia, no respeito às próprias tradições e carisma, aquilo que já condividimos da fé em Cristo, que é muito mais importante do que aquilo que ainda nos divide? Por que não trabalhar juntos para preparar para o Senhor, em vista do segundo milênio de sua vinda à terra, “um povo bem aceito”, como fez João Batista quando de sua primeira vinda? Esse projeto foi assumido pelo próprio papa João Paulo II que, na carta sobre o jubileu do ano 2000, Tertio millenio adveniente, exprime o desejo de que o jubileu seja ocasião de todos os cristãos porem em comum “as tantas coisas que nos unem e que são certamente mais do que as que nos dividem”.

Este livro pretende ser pequena contribuído à realização desse projeto. Nele, procurou-se valorizar intuições e riquezas próprias a cada qual das grandes tradições cristãs – católica, ortodoxa e protestante -, evitando, ao máximo, os pontos que não são objeto de acordo entre todos os que crêem em Cristo ou ao menos entre a maioria deles. A Carta aos Romanos se presta maravilhosamente a esse objetivo, porque se ocupa da estrutura fundamental da fé e do mistério cristão, deixando de lado todo o restante. Ela constitui a base ideal para o “testemunho comum” entre todos os que crêem, de que se fala sempre mais insistentemente nos ambientes ecumênicos.

Esta é uma primeira tentativa, ainda que “parcial” (o autor não pode nem quer ocultar seu enraizamento na tradição católica), de uma “espiritualidade” um “anúncio” que respondam à nova situação de crescente reaproximação entre os cristãos.

Nesse espírito, procuremos no Senhor nossa fora, como nos exorta um salmo, e façamos em nosso coração “a santa viagem” (cf. Sl 84,6).