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«Preso pela angústia, orava mais intensamente» (Lc 22, 44)
2006-03-17- Quaresma na Casa Pontifícia

1. Batizados em sua morte

Nas meditações de Advento, procurei tirar à luz a necessidade que temos, no momento atual, de redescobrir o kerygma, isto é, esse núcleo original da mensagem cristã, em presença do qual floresce normalmente o ato de fé. Deste núcleo, a Paixão e morte de Cristo representa seu elemento fundamental.

Desde o ponto de vista objetivo ou da fé, é a ressurreição, não a morte de Cristo, o elemento qualificador: «Não é grande coisa crer que Jesus morreu, escreve Santo Agostinho; isto o crêem também os pagãos e os réprobos; todos o crêem. Mas o verdadeiramente grande é crer que ele ressuscitou. A fé dos cristãos é a ressurreição de Cristo» [1]. Mas desde o ponto de vista subjetivo ou da vida, é a paixão, não a ressurreição, o elemento para nós mais importante: «Das três coisas que constituem o sacratíssimo tríduo --crucifixão, sepultura e ressurreição do Senhor-- nós, escreve também Santo Agostinho, realizamos na vida presente o significado da crucifixão, enquanto temos por fé e esperança o que significa a sepultura e a ressurreição» [2].

Escreveu-se que os Evangelhos são «relatos da Paixão precedidos de uma longa introdução» (M. Kahler). Mas lamentavelmente esta, que é a parte mais importante dos Evangelhos, é também a menos valorizada no curso do ano litúrgico, pois se lê uma só vez ao ano, na Semana Santa, quando pela duração dos ritos, é também impossível deter-se a explicá-la e comentá-la. Em um tempo, a pregação sobre a Paixão ocupava um lugar de honra em toda missão popular; hoje, que estas ocasiões passaram a ser raras, muitos cristãos chegam ao final de sua vida sem ter subido jamais ao Calvário...

Com nossas reflexões quaresmais propomo-nos preencher, ao menos em pequena medida, esta lacuna. Queremos estar um pouco com Jesus no Getsemani e no Calvário para chegar preparados à Páscoa. Está escrito que em Jerusalém havia uma piscina milagrosa e o primeiro que entrasse nela, quando suas águas se agitavam, era curado. Nós devemos entrar agora, no espírito, nesta piscina, ou neste oceano, que é a paixão de Cristo.

No batismo fomos «batizados em sua morte», «com ele sepultados» (Rm 6, 3s): aquilo que sucedeu uma vez misticamente no sacramento deve realizar-se existencialmente na vida. Devemos dar-nos um banho saudável na paixão para ser renovados por ela, revigorados, transformados. «Sepultei-me na paixão de Cristo, escreve a Beata Ângela de Foligno, e me deu a esperança de que nela encontraria minha libertação» [3].

2. Getsemani, um fato histórico

Nossa viagem pela Paixão começa, como a de Jesus, desde o Getsemani. A agonia de Jesus no Horto das Oliveiras é um fato afirmado nos Evangelhos sobre quatro colunas, isto é, pelos quatro evangelistas. João, com efeito, também fala disso, a sua maneira, quando põe na boca de Jesus as palavras: «Agora minha alma está turbada» (que recordam «minha alma está triste», dos sinóticos) e as palavras: «Pai, livra-me desta hora!» (que recordem o «afasta de mim este cálice», dos sinóticos) (João 12, 27 s). Também há um eco disso, como veremos, na Carta dos Hebreus.

É algo completamente extraordinário que um fato tão pouco «apologético» tenha encontrado um posto tão relevante na tradição. Só um acontecimento histórico, fortemente afirmado, explica a relevância dada a este momento da vida de Jesus. Cada um dos evangelistas deu ao episódio uma coloração diferente segundo sua própria sensibilidade e as necessidades da comunidade para a qual escrevia. Mas não acrescentaram nada verdadeiramente «alheio» ao fato; mas cada um tirou à luz algumas das infinitas implicações espirituais do fato. Não fizeram, como se diz hoje, eis-egesis, mas ex-egesis.

As que, segundo a letra, são, nos Evangelhos, afirmações contrastantes e excludentes reciprocamente, não o são segundo o Espírito. Se está ausente uma coerência exterior e material, não falta ao contrário uma profunda concórdia. Os Evangelhos são quatro ramos de uma árvore, separados na copa, mas unidos no tronco (a tradição comum oral da Igreja) e, através dele, na raiz, que é o Jesus histórico. A incapacidade de muitos estudiosos da Bíblia de ver as coisas a esta luz depende, em minha opinião, da ignorância com respeito ao que sucede nos fenômenos espirituais e místicos. São dois mundos regidos por leis distintas. É como se alguém quisesse explorar os corpos celestes com os instrumentos de exploração submarina.

Um eminente exegeta católico, Raymond Rown, que soube conjugar de forma exemplar rigor científico e sensibilidade espiritual no estudo da Bíblia, resume assim o conteúdo do episódio inicial da Paixão:

«Jesus que se separa de seus discípulos, a angústia de sua alma ao rogar que o cálice afastasse dele, a amorosa resposta do Pai que envia um anjo para sustentá-lo, a solidão do Mestre que três vezes encontra seus discípulos dormindo em lugar de orar com ele, o valor expressado na resolução final de ir ao encontro do traidor: tomada dos diversos Evangelhos, esta combinação de dor humana, apoio divino e oferecimento solitário de si contribuiu muito a fazer que os crentes em Jesus o amem, convertendo-se em objeto de arte de meditação» [4].

O núcleo originário em torno ao qual se desenvolveu toda a cena de Getsemani parece ter sido o da oração de Jesus. A lembrança de uma luta de Jesus na oração ante a iminência de sua Paixão funde suas raízes em uma tradição antiqüíssima, da qual dependem tanto Marcos como as outras fontes [5], e é neste aspecto sobre o qual desejamos refletir na presente meditação.

Os gestos que ele faz são os de uma pessoa que se debate em uma angústia mortal: «cai em terra», levanta-se para ir onde seus discípulos, volta a ajoelhar-se, depois se levanta de novo... sua como gotas de sangue (Lc 22, 44). De seus lábios sai a súplica: «Aba, Pai!; tudo é possível para ti; aparta de mim este cálice» (Mc 14, 36). A «violência» da oração de Jesus na iminência de sua morte destaca-se sobretudo na Carta aos Hebreus, na qual se diz que Cristo, «nos dias de sua vida mortal, ofereceu rogos e súplicas com poderoso clamor e lágrimas ao que podia salvá-lo da morte» (Hb 5, 7).

Jesus está só, ante a perspectiva de uma dor enorme que está a ponto de cair sobre ele. A «hora» esperada e temida do combate final com as forças do mal, da grande prova (peirasmos), chegou. Mas a causa de sua angústia é mais profunda ainda: ele se sente encarregado de todo o mal e das indignidades do mundo. Ele não cometeu este mal, mas é o mesmo, porque o assumiu livremente: «Ele levou nossos pecados em seu corpo» (1 Pedro 2, 24), isto é (segundo o sentido que esta palavra tem na Bíblia), em sua própria pessoa, alma, corpo e coração. Jesus é o homem «feito pecado», diz São Paulo (2 Cor 5, 21).

3. Duas formas distintas de lutar com Deus

Para tirar todo pretexto à heresia ariana, alguns antigos Padres explicaram o episódio do Getsemani em chave pedagógica com a idéia da «concessão» (dispensatio): Jesus não experimentou verdadeiramente angústia e pavor, só quis ensinar-nos como vencer com a oração nossas resistências humanas. No Getsemani, escreve São Hilário de Poitiers, «Cristo não está triste por si e não roga por si, mas por aqueles a quem adverte de que orem com atenção, para que não caia sobre eles o cálice da paixão» [6].

Depois de Calcedônia, já não se sente a necessidade de recorrer a esta explicação. Jesus no Getsemani não reza só para exortar-nos a que o façamos. Porque, sendo verdadeiro homem, «em todo semelhante a nós, menos no pecado», experimenta nossa mesma luta frente ao que repugna à natureza humana [7].

Mas ainda que o Getsemani explique-se então só com a intenção pedagógica, é certo que tal preocupação estava presente na mente dos evangelistas que nos transmitiram o episódio, e é importante para nós recolhê-la. Não se pode separar, nos Evangelhos, a narração do fato do chamado à imitação. «Cristo sofreu por vós, deixando-vos exemplo para que sigais suas marcas», diz a Carta de Pedro (1 Ped 2, 21).

A palavra «agonia» dita de Jesus no Getsemani (Lc 22, 44) deve ser entendida no sentido originário de luta, mais que no atual de agonia. Chega o tempo em que a oração transforma-se em combate, fadiga, agonia. Não falo, neste momento, da luta contra as distrações, ou seja, da luta conosco mesmos; falo da luta com Deus. Isto ocorre quando Deus te pede algo que tua natureza não está pronta para dar-lhe e quando a ação de Deus se faz incompreensível e desconcertante.

A Bíblia apresenta outro caso de luta com Deus na oração e é muito instrutivo comparar entre si os dois episódios. Trata-se do combate de Jacó com Deus (Gn 32, 23-33). Também o cenário é muito parecido. O combate de Jacó desenvolve-se de noite, num cenário similar --Ybboq--, e igualmente o de Jesus acontece de noite, ao lado da torrente Cedrón. Jacó afasta de si escravos, esposas e filhos para ficar só, Jesus afasta-se também dos últimos três discípulos para orar.

Mas por que Jacó luta com Deus? Aqui está a grande lição que devemos aprender. «Não te solto --diz-- até que não me tenhas abençoado», ou seja, até que não faças o que te peço. E ainda: «Diga-me teu nome». Está convencido de que, usando o poder que dá a conhecer o nome de Deus, poderá prevalecer sobre seu irmão Labão, que o segue. Deus o abençoa, mas não lhe revela seu nome.

Jacó luta portanto para pregar a Deus a sua vontade, Jesus luta para orar sua vontade humana a Deus. Luta porque «o espírito está pronto, mas a carne é fraca» (Mc 14, 38). Surge espontaneamente perguntar-se: a quem nos parecemos nós, quando oramos em situações de dificuldade? Parecemos com Jacó, o homem do Antigo Testamento, quando, na oração, lutamos para induzir Deus a que mude de decisão, mais que para mudar nós mesmos e aceitar sua vontade; para que nos tire essa cruz, mais que para ser capazes de levá-la com ele. Parecemos a Jesus se, ainda entre os gemidos e a carne que sua sangue, buscamos abandonar-nos à vontade do Pai. Os resultados das duas orações são muito diferentes. A Jacó Deus não lhe dá seu nome, mas a Jesus lhe dará o nome que está sobre todo nome (Flp 2, 11).

Às vezes, perseverando neste tipo de oração, sucede algo estranho que é bom conhecer para não perder uma ocasião preciosa. As partes se invertem: Deus se converte em quem roga e tu naquele a quem se roga. Tu te pões a rezar para pedir algo a Deus e, uma vez em oração, dás-te conta pouco a pouco de que é ele, Deus, quem estende sua mão para ti pedindo-te algo. Foste pedir-lhe que te tirasse aquele espinho da carne, aquela cruz, aquela prova, que te livrasse dessa função, daquela situação, da proximidade daquela pessoa... e eis aqui que Deus te pede precisamente que aceites essa cruz, essa situação, essa função, a essa pessoa.

Uma poesia de Tagore ajuda a entender de que se trata. É um mendigo quem fala e relata sua experiência. Diz mais ou menos assim: Estava pedindo de porta em porta pela rua da cidade, quando desde longe apareceu uma carroça de ouro. Era a do filho do Rei. Pensei: esta é a ocasião de minha vida; e me sentei abrindo bem o saco, esperando que se me desse esmola sem ter que pedir-lhe sequer; mais ainda, que as riquezas chovessem até o solo a meu redor. Mas qual não foi minha surpresa quando, ao chegar junto a mim, a carroça se deteve, o filho do Rei descendeu e estendendo sua mão me disse: «Podes dar-me alguma coisa?». Que gesto o de tua realeza, estender tua mão!... Confuso e duvidoso tomei do saco um grão de arroz, um só, o menor e o dei. Mas que tristeza quando, pela tarde rebuscando em meu saco, encontrei um grão de ouro, só um, o menor. Chorei amargamente por não ter tido o valor de dar tudo [8].

O caso mais sublime desta inversão das partes é precisamente a oração de Jesus no Getsemani. Ele roga que o Pai afaste dele o cálice, e o Pai lhe pede que o beba para a salvação do mundo. Jesus dá não uma, mas todas as gotas de seu sangue, e o Pai lhe recompensa constituindo-o, também como homem, Senhor, de modo que «uma só gota desse sangue basta para salvar o mundo inteiro» (una stilla salvum facere totum mundum quit ab omni scelere).

4. «Preso em angústia, orava mais intensamente»

Estas palavras foram escritas pelo evangelista Lucas (22, 44) com uma clara intenção pastoral: mostrar à Igreja de seu tempo, submetida também já a situações de luta e de perseguição, o que ensinou a fazer o mestre em tais apuros.

A vida humana está semeada de muitas pequenas noites de Getsemani. As causas podem ser numerosas e distintas: uma ameaça que se perfila para nossa saúde, uma incompreensão do ambiente, a indiferença de quem temos perto, o temor às conseqüências de algum erro cometido. Mas pode ter causas mais profundas: a perda do sentido de Deus, a consciência do próprio pecado e indignidade, a impressão de ter perdido a fé. Em resumo, o que os santos chamaram «a noite escura do espírito».

Jesus nos ensina o que é o primeiro que há que fazer nestes casos: recorrer a Deus com a oração. Não há que se enganar: é verdade que Jesus no Getsemani busca também a companhia de seus amigos, mas por que a busca? Não para que lhe digam palavras boas ou para que se consolem. Pede que o acompanhem na oração, que rezem com ele: «Com que não haveis podido velar comigo nem sequer uma hora? Velai e orai» (Mt 26, 40).

É importante observar como começa a oração de Jesus no Getsemani, na fonte mais antiga, que é Marcos: «Abbá, Pai!; tudo é possível para ti» (Mc 14, 36). O filósofo Kiekegaard faz ao respeito reflexões iluminadoras. Diz: «A questão decisiva é que para Deus tudo é possível». O homem cai no verdadeiro desespero só quando já não tem ante si possibilidade alguma, nenhuma tarefa, quando, como se diz, não há nada que fazer. «Quando se desvanece, vai a busca de água de Colônia, gotas de Hoffmann; mas quando se desespera, há que dizer: “Achai uma possibilidade, achai uma possibilidade!”. A possibilidade é o único remédio; dai-lhe uma possibilidade e o desesperado recobra as vontades, reanima-se, porque se o homem fica sem possibilidade é como se lhe faltasse o ar. Às vezes inventivo de uma fantasia humana pode bastar para encontrar uma possibilidade; mas ao final, quando se trata de crer, só serve isto: que para Deus tudo é possível» (9).

Esta possibilidade sempre ao alcance da mão para um crente é a oração. «Orar é como respirar» (10). E se já se orou sem êxito? Orar mais! Orar prolixius, com maior insistência. Poder-se-á objetar que, contudo, Jesus não foi escutado, mas a Carta aos Hebreus diz exatamente o contrário: «foi escutado por sua perda». Lucas expressa esta ajuda interior que Jesus recebeu do Pai com o detalhe do anjo: «Então, se lhe apareceu um anjo vindo do céu que o confortava» (Lc 22, 43). Mas trata-se de uma antecipação. A verdadeira grande escuta do Pai foi a ressurreição.

Deus, observava Agostinho, escuta ainda quando... não escuta, isto é, quando não obtemos o que estamos pedindo. Seu atraso em atender é já uma escuta, para poder nos dar mais do que pedimos (11). Se apesar de tudo seguimos orando é sinal de que nos está dando sua graça. Se Jesus ao final da cena pronuncia seu resoluto: «Levantai-vos! Vamos!» (Mt 26, 46), é porque o Pai lhe deu mais que «doze legiões de anjos» para defendê-lo. «Inspirou-o, diz São Tomás, a vontade de sofrer por nós, infundindo-lhe o amor» (12).

A capacidade de orar é nosso grande recurso. Muitos cristãos, inclusive verdadeiramente comprometidos, experimentam sua importância ante as tentações e a impossibilidade de adaptar-se às altíssimas exigências da moral evangélica e concluem, às vezes, que não podem e que é impossível viver integralmente a vida cristã. Em certo sentido têm razão. É impossível, com efeito, por si só, evitar o pecado; necessita-se da graça; mas também a graça é gratuita e não se pode merecer. O que fazer então: desesperar-se, render-se? Diz o Concílio de Trento: «Deus, dando-te a graça, te manda fazer o que podes e pedir o que não podes» (13).

A diferença entre a lei e a graça consiste precisamente nisto: na lei Deus diz ao homem: «Faz o que te mando!»; na graça, o homem diz a Deus: «Dai-me o que me mandas!». A lei manda, a graça demanda. Uma vez descoberto este segredo, Agostinho, que até então havia lutado inutilmente para ser casto, mudou de método, e mais que lutar com seu corpo começou a lutar com Deus. Disse: «Oh Deus, tu me mandas que seja casto; pois bem, dai-me o que mandas e manda-me o que queiras!» (14). E sabemos que obteve a castidade!

Jesus deu por adiantado a seus discípulos o meio e as palavras para unir-se a ele na prova, o Pai Nosso, não há estado de ânimo que não se reflete no «Pai Nosso» e que não encontre nele a possibilidade de traduzir-se em oração: o gozo, o louvor, a adoração, a ação de graças, o arrependimento. Mas o «Pai Nosso» e sobretudo a oração da hora da prova. Há uma semelhança entre a oração que Jesus deixou a seus discípulos e a que ele mesmo elevou ao Pai no Getsemani. Ele nos deixou, na realidade, sua oração.

A oração de Jesus começa como o Pai Nosso, com o grito: «Abba, Pai!» (Mc 14, 36), ou «Pai meu» (Mt 26, 39); prossegue, como o Pai Nosso, pedindo que se faça sua vontade; pede que passe dele este cálice, como no Pai Nosso pedimos ser «livrados do mal»; diz a seus discípulos que rezem para não cair em tentação e nos faz concluir o Pai Nosso com as palavras: «Não nos deixes cair em tentação».

Que consolo, na hora da prova e da escuridão, saber que o Espírito Santo segue em nós a oração de Jesus no Getsemani, que os «gemidos inenarráveis» com o qual o Espírito intercede por nós, nesses momentos, chegam ao Pai mesclados com os «rogos e súplicas com poderoso clamor e lágrimas» que o Filho lhe elevou ao sobrevir «sua hora»! (Hb 5, 7).

5. Em agonia até o fim do mundo

Devemos recolher um último ensinamento antes de despedir-nos de Jesus do Getsemani. São Leão Magno diz que «a paixão se prolonga até o fim dos séculos» (15). Faz-lhe eco o filósofo Pascal na célebre meditação sobre a agonia de Jesus:

«Cristo estará em agonia até o fim do mundo. Durante este tempo não há que dormir.
Eu pensava em ti em minha agonia: essas gotas de sangue as derramei por ti.
Queres custar-me sempre sangue de minha humanidade, sem que tu derrames uma lágrima?
Eu sou mais amigo teu que tal qual, porque fiz por ti mais que eles, e eles não sofrerão jamais o que sofri por ti, nunca morrerão por ti no momento de tua infidelidade e de tuas crueldades, como fiz eu e estou disposto a fazer em meus eleitos e no Santo Sacramento» (16).

Tudo isto não é um simples modo de falar ou uma constrição psicológica, corresponde misteriosamente à verdade. No Espírito, Jesus está também agora no Getsemani, no pretório, na cruz. E não só em seu corpo místico --em quem sofre, é apressado ou assassinado--, mas, de uma forma que não podemos explicar, também em sua pessoa. Isto é verdade não «apesar de» sua ressurreição, mas precisamente «por causa» da ressurreição que fez ao Crucificado «vivo nos séculos». O Apocalipse nos apresenta o Cordeiro no céu «em pé», ou seja ressuscitado e vivo, mas com os sinais ainda visíveis de sua imolação (Ap 5, 6).

O lugar privilegiado onde podemos encontrar este Jesus «em agonia até o fim do mundo» é a Eucaristia. Jesus a instituiu imediatamente antes de ir ao Horto das Oliveiras para que seus discípulos pudessem, em toda época, fazer-se «contemporâneo» de sua Paixão. Se o Espírito nos inspira o desejo de estar uma hora ao lado de Jesus no Getsemani esta Quaresma, a forma mais simples de levá-lo a cabo é passar, na tarde de quinta-feira, uma hora ante o Santíssimo Sacramento.

Isto não deve, evidentemente, fazer-nos esquecer o outro modo em que Cristo «está em agonia até o fim do mundo», isto é, nos membros de seu corpo místico. E mais, se queremos concretizar nossos sentimentos para com ele, o caminho obrigatório é precisamente fazer a algum deles o que não podemos fazer com ele que está na glória.

A palavra Getsemani se converteu no símbolo de toda dor moral. Jesus ainda não sofreu em sua carne; sua dor é do todo interior, e contudo não sua sangue mais que aqui, quando é seu coração, não ainda sua carne, o que é sufocado. O mundo é muito sensível às dores corporais, comove-se facilmente por elas; muito menos ante as dores morais, das quais às vezes até se burla tomando por hipersensibilidade, auto-sugestão, caprichos.

Deus toma muito a sério a dor do coração e assim deveríamos fazer também nós. Penso em quem vê quebrado o laço mais forte que tinha na vida e se encontra só (mais freqüentemente só); em quem é traído nos afetos, está angustiado ante algo que ameaça sua vida ou a de um ser querido; em quem, injustamente ou com razão (não há muita diferença desde este ponto de vista), vê-se assinalado, de um dia para outro, no escárnio público. Quantos Getsemani escondidos no mundo, talvez sob nosso mesmo teto, na porta do lado, ou na mesa de trabalho do lado! É tarefa nossa identificar alguém nesta Quaresma e fazer-nos próximos a quem se encontra ali.

Que Jesus não tenha que dizer entre estes seus membros: «Espero compaixão, e não há, consoladores, e não encontro nenhum» (Salmo 68, 21), mas que possa, ao contrário, fazer-nos sentir no coração a palavra que recompensa tudo: «A mim o fizeste».

[1] Santo Agostinho, Enarrationes in Psalmos 120, 6: CCL 40, p. 1791.
[2] Santo Agostinho, Cartas, 55, 14, 24 (CSEL 34,2, p. 195).
[3] Il libro della B. Angela da Foligno, Quaracchi, Grottaferrata 1985, p. 148.
[4] R. E. Brown, The Death of the Messiah. From Gethsemane to the Grave. A Commentary on the Passion Narratives in the Four Gospels, I, Doubleday, New York, 1994, p. 216.
[5] Brown, p. 233.
[6] Cfr. S. Hilario de Poitiers, De Trinitate, X, 37.
[7] Cfr. S. Máximo, Confesor, In Mattheum 26,39 (PG 91, 68).
[8] Tagore, Gitanjali, 50 (trad. ital. Newton Compton, Roma 1985, p. 91).
[9] S. Kierkegaard, La malattia mortale, parte I, C, (Opere, a cargo de C. Fabro, pp. 639 ss.
[10] Ib. p. 640
[11] S. Agustinho, Sobre a Primeira Carta de João, 6, 6-8 (PL 35, 2023 s.).
[12] S. Tomás de Aquino, Summa theologiae, III, q. 47, a. 3.
[13] Denzinger-Schönmetzer, Enchiridion Symbolorum, n. 1536.
[14] S. Agustín, Confesiones, X, 29.
[15] S. León Magno, Sermo 70, 5: PL 54, 383
[16] B. Pascal, Pensamientos, n. 553 Br.

[Tradução do original realizada por Zenit]
 
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